SEMINÁRIOS E FALATÓRIOS

SóPapos 2015

Situação: Publicado pela NovaMente Editora, RJ, 2016.

Continuando a série dos SóPapos iniciada em 2011 – “deixando correr os papos no aleatório, mas sem jogar conversa fora” –, este livro transcreve a fala de MD Magno durante 2015.

De saída, reafirma-se que a Teoria das Formações, criada nos anos 1990, considera qualquer fenômeno – teórico, clínico... – em termos de formações em jogo, em transa. Ela toma tudo em termos de formações as mais vazias e busca levantar suas convergências e refrações, seus estacionamentos, regressões e progressões. Refrações significando que, a cada momento, pode-se tirar da caixa de lentes a mais adequada para melhor enxergar as formações ali em jogo. Não importa de quem seja, de Freud, Lacan, Jung, Melanie Klein...

Psicanalisar é diferente de aplicar um saber: o analista não sabe, não julga ou avalia, mas escuta – e terá sempre a aprender. A neutralidade está na Postura: a postura mental de operar o mais possível na indiferença, isto é, no interesse de todas as diferenças em jogo nas situações.

Assim como já dissera: “Chega de amor”, diz Magno agora: “Chega de sonhos”. Um sonho, desde Freud, não é a expressão de um desejo, mas sua realização, exata­mente como se configuram as ideologias. Por isso, o sonho deve ser analisado, para que se entenda a bobice desejante por detrás de sua lorotice.

Outro papo foi sobre as três doutrinas de Nietzsche, no Zaratustra. A do Sobre-humano, que, para a Nova Psicaná­lise, é a possibilidade de suspensão, de dessintomatização, mediante Indiferenciação radical. A da Vontade de Poder, que diz respeito (não a o poder constituído, e sim) ao verbo poder, que é a Pulsão (Haver desejo de não-Haver). No caso, vontade de poder o Impossível. E a do Eterno Retorno, que é a repetição do Eterno Retorno do Retorno: é o Retorno retornando. O mesmo que retorna é: o Retorno.

Noutra conversa, o gênero é elaborado em termos de dissociação das formações numa mesma pessoa. Conforme à Tópica da psicanálise, apresentada por Magno em 1992 – Primário (formações corporais: autossomáticas, e comportamentais: etossomáticas); Secundário (cultura, simbólico); e Originário (Revirão) –, não há congruência necessária entre autossoma e etossoma no registro primário. As pessoas têm forte tendência a identificações estilís­ticas, mas sua possibilidade de expressão é aberta. Assim, em vez de perguntar a alguém sobre seu gênero, a pergunta será sobre seu estilo.

Os papos também versaram sobre a verdade: para a psicanálise, o paradigma da verdade é sexual (nada de mais verdadeiro que Tesão); o conhecimento: as epistemologias são pura vontade de dominação (o que sustenta o espírito científico são as perguntas, e não as respostas); a posição psica­nálise: nem oriental nem europeia, é uma posição terceira (a neutralidade de Freud, o exercício da Indiferenciação)...


Sumário

1, 15

Maravalha: SÉ S.A.

2, 18

Reconhecimento da estrutura bífida no Haver e na cultura contemporânea – Considerações sobre os níveis de existência a partir da tópica Primário, Secundário e Originário.

3, 20

Proposição dos conceitos de Convergência e Refração – Limite dos parâmetros de configuração e de procura de invariantes – Patemática é sistema de apreensão vazio dos movimentos Progressivo, Estacionário e Regressivo da mente.

4, 25

Refração e Teoria das Formações – Teoria das Formações considera parâmetros de configuração e invariância apenas como ferramental teórico – Refrações teóricas da psicanálise – Formações metanoica-paranoica descrevem a transa com outras formações.

5, 29

Crítica à noção de verdade histórica em Freud – Relação entre os mecanismos de recusa e denegação.

6, 33

Guerra global, movimentos regressivos no mundo e a Diferocracia como saída para os conflitos atuais – Possibilidades de suspeição e suspensão no regime da Diferocracia – Realismo hipotético de Feyerabend e o Realismo Transativo da Gnômica – Fracasso como regime de funcionamento da psicanálise.

7, 40

Avaliação das formulações freudiana e lacaniana sobre a sexualidade: determinação sexual é histórica – Posição da psicanálise é anti-polêmica – Teoria das Formações é Realismo Hipotético ou Realismo Transacional – Origem da Teoria das Formações no Seminário O Pato Lógico (1979): os processos de Ex-citação, In-citação e Re-citação – Estratos sintomáticos do Creodo Antrópico descrevem o périplo protético e gnoseológico da espécie – Transcendental como imanentização da transcendência.

8, 50

Pensamentos totalizante e totalitário da filosofia como wishful thinking – Neo-etologia do filme Relatos selvagens – Vocação da psicanálise: suspender o animal de qualquer tipo – Reconsideração das três doutrinas fundamentais de Nietzsche: o Sobre-humano (= dessintomatização pela Indiferenciação); Vontade de Poder (= execução d’Alei: AàÃ); e Eterno Retorno (= Eterno Retorno do Retorno) – Teleologia para a espécie: desejar o Impossível – Exame do problema do niilismo – Postura oriental como vontade de entendimento; postura ocidental (filosofia) como vontade de dominação; e o lugar Terceiro da psicanálise – Transmissão e transfiguração em psicanálise.

9, 59

Precedência do Primário derroga raciocínio metafísico – “Tendência à metafísica”: desconhecimento do funcionamento do Secundário – Revirão (Originário): função que dá origem à espécie – Originário: movimento de transcendentação sem transcendente – Crença no “para-além-de”: Proliferação de psicose.

10, 64

Enfrentamento da repetição sintomal da espécie mediante expedientes de Indiferenciação e Bifidização – Singularidade: retorno do Mesmo, sem conteúdo.

11, 67

Psicanálise é aristocrática – Incompatibilidade entre a ideia de igualdade e a psicanálise – Hierarquia da função analista – Disponibilidade para análise no regime da Análise Efetiva.

12, 70

O retorno francês a Freud, de Lacan – Riscos de recrudescência do Quarto Império – Ordenação social do Quarto Império: avaliação permanente, transparência e respeito – República: o regime social e estatal da Diferocracia.

13, 76

Comentário sobre o livro De l’Être au Vivre: Lexique euro-chinois de la pensée, de François Jullien – Utilidade do diálogo China/Ocidente para a Nova Psicanálise – Descoberta da Bifididade do Inconsciente, em Freud – Posição analítica funciona entre o pensamento ocidental e o pensamento chinês – Relação entre Bifididade e primeira tópica freudiana – Valor da pornografia.

14, 83

A polaridade diferença-separação apresentada por François Jullien – Formulações de Oswald de Andrade e Mário de Andrade sobre a polaridade da cultura brasileira: antropofagia e Macunaíma – Polaridade fundamental do Brasil: Mazombo e Bossal.

15, 89

Sintoma francês da postulação lacaniana do sujeito do inconsciente – Wo Es war Soll Ich werden de Freud é reconhecimento do Inconsciente pelo eu.

16, 90

Comentários ao livro The Relativistic Brain, de Miguel Nicolelis e Ronald Cicurel – Outras teorias do cérebro (Ray Kurzweil, Roger Penrose) – Composição primária, secundária e originária do cérebro implica interferências complexas em sua funcionalidade – Não há maquinismo capaz de imitar a transferência – Escopo abrangente da Teoria das Formações permite fazer a leitura das Morfoses independentemente de sua causa primária ou secundária – Transa de formações da mesma ordem resulta em conhecimento da própria formação e da do outro, sem sujeito.

17, 98

Bifididade nos escólios da Ética, de Espinosa – Pensamento Perplexo considera, como origem, a Bifididade de tudo no Inconsciente – Anterioridade da Bifididade da mente em relação à sua manifestação opositiva no mundo macro – Espinosa, maneirista; Descartes, clássico; e Leibniz, barroco. 

18, 101

Tempo lógico em Lacan – Cinco Impérios como caminho necessário (Creodo) da espécie chamada IdioFormação. 

19, 103

Morfose Regressiva resulta de HiperRecalque – Dois vetores da Morfose Regressiva:  centrípeto (remete ao hiperrecalcado como parana) e centrífugo (fuga do HiperRecalque como esquizo) – Exemplaridades de Schreber e Artaud.

20, 107

 Tratamento psicanalítico: restauração do hímen – Análise Propedêutica: retirar a Pessoa da bilateralidade para entender a unilateralidade da mente – Análise Efetiva: restaurar o hímen verdadeiro, o plano projetivo.

21, 108

Olhar indiferenciante de Cézanne – Cézanne “não focaliza, olha paralelo e deixa que a coisa se constitua sem foco” – Indiferenciação é não colocar juízo algum – Projeção do olhar (psicologia) x deixar o olhar constituir-se (psicanálise).

 

22, 111

Bifididade do Inconsciente ao invés da alteridade, de Lacan – Sexo verdadeiro é Terceiro – Necessidade do protocolo estruturalista, em Lacan – Crítica pós-estruturalista à noção de Inconsciente – Montagem do sonho é figural, e não apenas significante – Entendimento de uma análise: A Carta Roubada e O Escaravelho de Ouro, de Poe.

 

23, 115

Quinto Império como retorno e leitura plena do Primário – Concepção do Trágico em Nietzsche: comoção como acontecimento – Tragédia como expressão do Bífido – Paralisia (histeria e obsessividade) é impossibilidade de exprimir o Trágico da Bifididade originária – Acontecimento: indiscernibilidade entre evento e escolha – Barroco e Clássico derivam do Maneirismo – Esforço de Bifididade no Maneirismo – Dilaceramento entre forças opostas é a tragicidade do Bífido – HiperDeterminação como acontecimento – Solução da análise = solução da tragédia – A solução é risco: não considera a lei mundana, e sim Alei absoluta (Haver desejo de não-Haver) – Solução da análise é a melancolia, não a mania, nem a depressão.

 

24, 120

Entrada do Quarto Império, crise dos fundamentos e aceleração da informação – Computação de Turing ameaçada pela computação quântica – Computação quântica quer conseguir pensar conforme o Inconsciente, bifidamente – Em um mundo sem qualquer privacidade, o Inconsciente muda de composição – “As pessoas pensam que há um Inconsciente dentro delas, quando é o contrário: estamos mergulhados nele” – Originário é produzido pelo Primário: a evolução deixa de ser biológica para ser tecnológica, Secundária – O Inconsciente é externo – Juízo foraclusivo não depende do acontecimento, e sim de afastamento – Inconsciente como discurso do Outro (Lacan) e o Inconsciente como discurso do Mesmo (Nova Psicanálise) – Quinto Império faz referência ao Primário, novamente, lido, mapeado – Problema da escolha e a tópica “Primário, Secundário e Originário” – Diferocracia e o fim do Estado.

 

25, 128

Teoria das Formações é ferramenta eficaz para pensar para além da diferença de gêneros – Primário (autossoma e etossoma) como constituição do animal – Constituição da Pessoa é maranha de autossoma, etossoma e heterossoma – Heterossoma (Originário) é Revirão – O Secundário é propiciado pelo Originário – Emergência de Originário é subversão do etossomático – Funcionamento do autossoma, do etossoma e do heterossoma resulta em neo-etologia – Nossas constituições sintomáticas são lesões no Primário – Dissociação entre formações etossomáticas e autossomáticas – Análise intervém no texto do Secundário – “O gênero há de ser tão artístico quanto uma obra de arte” – Maneirismo é trans – Beatriz Preciado e o sexo protético.

 

26, 140

Jung e a leitura conteudística do Inconsciente – Nise da Silveira e a psicose – Psicopatas e o poder.

 

27, 143

“Só há fatos, não há interpretações” – Em psicanálise, o paradigma da verdade é sexual – Qualquer transa de formações elabora conhecimento – Transa de formações: ex-citação, in-citação, re-citação – Não é possível uma transa acontecer sem inscrição de conhecimento – Epistemologias são vontade de dominação – O que sustenta o espírito científico são as perguntas, não as respostas – Axioma como apelido de uma verdade – Verdade em psicanálise é Alei – Haver é regido pela lei do desperdício – Haver é homogêneo, sem perda de energia ou de informação, com mudança de configuração (metamorfose) – Análise é dizer a verdade sintomática de cada um – Verdadeira ciência resulta em tecnologia – Neurônios-espelhos não explicam catoptria – Ressonância é transa entre formações que desconhecemos.

 

28, 151

Precariedade da distinção entre Imaginário e Simbólico, em Lacan – Eu Ideal é a formação que sustenta meu reconhecimento de mim (completamente falsa); Ideal de Eu é a formação que suponho que deveria ser – Vontade científica de fundo nos atos teóricos de Lacan – Primário é constituído da mesma maneira que o Secundário, só que limitado – Nietzsche: ideia de sujeito é uma superstição – Psicanálise como técnica de deixar uma existência falar – Situação contemporânea do planeta é psicótica.



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