SEMINÁRIOS E FALATÓRIOS

Ordem e Progresso / Por Dom e Regresso

Resumo

Local: Colégio Brasileiro de Cirurgiões e sede do CFRJ
Situação: Publicado pela Aoutra Editora, RJ, 1987

Resumo

Retoma-se a conceituação geral da lógica do significante de Lacan para repensá-la à luz do conceito de Revirão, um halo e seus alelos. Isto sem deixar de considerar indicações de outras áreas que também destacaram a questão, como, por exemplo, a Gestalttheorie. Retoma-se também o tema do sintoma Brasil partindo do lema de Augusto Comte ordem e progresso inscrito na bandeira nacional para, com uma nova leitura, recuperá-lo na esteira do sentido lacaniano de metáfora e metonímia, nomeadas respectivamente como plexo e nexo.

Além de novas reflexões teóricas que ampliam o conceito de Revirão dentro da psicanálise freudiana, este Seminário questiona as freqüentes interpretações de alguns autores sobre a suposta paranóia de Augusto Comte e seus efeitos políticos e sociais. Isto mediante a noção de psicose perversista ou fetichista, apresentada anteriormente, sugerindo que uma prática obsessiva, que resultou na construção da filosofia positivista comtiana (que acredita na possibilidade de arrolar a verdade por inteiro e suprimir a equivocação), pode produzir um fetiche, o qual, por sua vez, pode ser tomado numa psicose fetichista, perversista, e imposta à idolatria cultural. Ou seja, o produto de uma neurose obsessiva operante, bem construído, pode ser retomado, não neuroticamente mas pela via da psicose. Ao psicótico fetichista cabe apenas tomar esse fetiche já disponível (que pode muito bem ser empregado em uma prática cultural e política) e instaurar novas formas de perversidade social.

Ordem e Progresso retoma a proposta feita em Psicanálise & Polética a respeito da heterofagia, inspirada na intuição poética de Oswald de Andrade - a antropofagia -, para, sobre o lema da bandeira brasileira e seu sentido dado e positivado, operar uma intervenção capaz de deslocamento em direção a uma maior equivocidade do sentido: Libertas quae sera tamen, liberdade ainda que tarde, também parte do grande sintoma brasileiro.

Em Por Dom e Regresso, trata-se de questões teóricas e clínicas básicas da psicanálise já anteriormente trabalhadas com o propósito de operar uma revisão dos conceitos lacanianos de real, simbólico e imaginário, tomando por base o Revirão.

Atravessam este Seminário questões que serão longamente desenvolvidas em produção posterior, principalmente depois da postulação da teoria geral do Pleroma: a reflexão sobre o lugar da psicanálise na contemporaneidade perante a ortodoxia das formas de pensamento que dominam o cenário geral; a necessidade de repensar a Pedagogia em diálogo com a psicanálise (retomada em 1992, com a Pedagogia Freudiana); e a suposição do Revirão do Universo, um grande pingue-pongue do big-bang que, embora pensado ainda como science fiction ou mera ficção para o campo das ciências, já apresenta o esboço da reflexão a respeito do Haver e de seu desejo absolutamente impossível, formulados só-depois como ALEI.

É um Seminário denso e muito rico na sua via de questionamento da própria psicanálise, não escondendo suas costuras e exibindo o Rombo que ela mesma anuncia ao descoser os enunciados. Isto para fazer de seu próprio impasse um momento fecundo.

Aristides Alonso


Sumário

0 – 17 Jan: Carta a Berta

Ordem e Progresso

1 – 16 Mar: Halopatia
Proposição do conceito do Um – Experiência significante é revirão – Alelismo significante: impossibilidade de coincidência e complementaridade entre alelos – Questão sobre o significante: identidade e referência.

2 – 25 Mar: A reflexão
Reflexão da imagem própria como matriz simbólica no Estádio do Espelho – Descrição em quatro tempos da reflexão – Instalação do ponto bífido no espelho uniface.

3 – 30 Mar: Auriverde pendão
Considerações sobre a recepção do positivismo no Brasil – Distinção entre cultura e sintoma –Ordem e progresso é metáfora e metonímia – Sintomática brasileira é heterofágica – Exigência de Nome do Pai na análise do sintoma nacional.

4 – 13 Abr: Cambalhota
Tradução de Trieb: tesão – Leitura da Pulsão e suas vicissitudes – Homotopia entre circuito da pulsão em Lacan e revirão – Perversão é condição do falante – Graus de perversão e o regime específico da perversidade – Denúncia da perversidade social.

5 – 27 Abr: O afeto que se enterra 
Relação entre afeto e fé – Poder se funda na imaginarização do simbólico – Cristalização sintomática sustenta poderes – Desejo quer a morte – Apresentação do poema Se queres bem.

6 – 11 Mai: O globo da morte
Etimologia de corrumpio – Entendimento do Globo da Morte como esfera borromeana – Lógica do Globo da Morte é em revirão – Nó borromeano: espaço unilátero e estrutura quaternária – Referência sintomática do sujeito (alíngua) – Cura psicanalítica.

7 – 25 Mai: O Outro ideal: a ré pública ossidental
Relação entre neurose obsessiva e obsessão do falante (inconsciente) – Não há matema da neurose obsessiva – Dialética inter e intrasubjetiva na análise – Neurose obsessiva é o regime de fé no saber – Produção de fetiche pela neurose obsessiva.

8 – 15 Jun: Corpo estranho
Estatuto do corpo para a psicanálise – Imaginário, simbólico e real do corpo – Constituição do corpo – Isso, Tao e revirão.

9 – 29 Jun: ... Ele...
Função do shifter em Jakobson – Sujeito do dito em Freud e Lacan: sintoma – Sujeito do dizer: $entido – Resumo da primeira parte do Seminário.

Por Dom e Regresso

1 – 04 Ago: O espírito da coisa
Práticas de distanciamento no Bahagavad-Gita e na Psicanálise – Razão bífida de real, simbólico e imaginário – Regime das oposições em real, simbólico e imaginário –  Nível originário das oposições.

2 – 18 Ago: Por que não
Unicidade e dualidade no I Ching e na banda de Moebius – Dissimetrização como efeito de negação – “A negação fundamenta o que é da ordem do recalque” – Função do não, função de interdição e denegação – Denegação como retorno do recalcado e retorno do impossível.

3 – 01 Set: Mais ou menos
Neutralidade do objeto a e lógica da bifididade do significante – Quatro movimentos da instalação significante de uma língua: 1) bifididade do halo significante; 2) interdição do anti-alelo; 3) denegação; 4) negação do manifesto – Artifício da negação estatui a Lei da Diferença – “O que distingue o falante é a bifididade originária” – Bifididade é fundamento de artifício (que funda natureza).

4 – 15 Set: Papilas, pupilas
O visível e o invisível de Merleau-Ponty – Quiasma é da estrutura do revirão – Condição da consciência-de-si: revirão – Computador significante do falante (máquina de instalação da diferença) – Fundamento da metáfora é revirão.                          

5 – 29 Set: Luxúria
Falha ôntica como real (neutralidade) – Neutralidade como máquina originária de reversão – Existência não-ortodoxa da psicanálise – Psicanálise é uma Gnose do século XX – Real, simbólico, imaginário e sintoma no Espelho – Nome do Pai é o não constitutivo do sintoma fundamental do falante – Níveis de recalque e sintoma – Passe do sintoma é ato de transmissão.

6 – 13 Out: Pedra de toque
Significante falo (F) em Lacan – S1 como sustentador da ordem sintomática – Metáfora paterna e gozo fálico – Homossexualidade e heterossexualidade do falante – Equivocação da razão fálica.

7 – 27 Out: Ao zôo se a praxe zero à tua extrai
O que fundamenta a ética da psicanálise é revirão – Identificação simbólica com o sintoma – Aproximações entre o sobre-humano niezscheano e o revirão.

8 – 10 Nov: Leito urdito
Possibilidade de instituição psicanalítica – Universal reduz-se ao possível – Apresentação do poema Revirão.



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